A Festa dos Psiquiatras

01/01/1990 02h00

Jorge Forbes

Psiquiatras e psicanalistas nem sempre estão nos melhores termos. “Desdém” é o sentimento que têm em comum, na mesma direção, em sentido contrário.
A falta de cientificidade positiva da psicanálise a faz prima do charlatanismo para os psiquiatras e o “discurso do mestre” da psiquiatria a faz retrógrada e alienante para os psicanalistas. Há mesmo quem ache que ser psicanalista é aquele que se desvencilhou de seu “vício psiquiátrico”. Triste, muito triste esse panorama. Lembro-me de Althusser que dizia que em alguns momentos a teoria é o porrete que bate mais forte. A continuarmos assim, em breve anunciaremos: neste corner a “Síndrome do Pânico”, no outro, o “Sujeito dividido”; como platéia histéricas e obscuros objetos do desejo.

O buraco está mais em cima. É inegável ser a Psicanálise herdeira da Psiquiatria. Herdeira, nem continuadora, nem parte. A psicanálise não vai substituir a psiquiatria e nem também é, como já quiseram que fosse, uma técnica desta.
A psicanálise é herdeira da psiquiatria porque sua ação se realiza no mesmo campo, “no mesmo conjunto de experiência do homem”, conjunto chamado, com reserva, de “sofrimento psíquico”.
A psicanálise age e fala aonde o diálogo psiquiatra-paciente emudece.
É tola e perigosa a esperança de alguns defensores da psiquiatria biológica que os avanços das pesquisas laboratoriais irão terminar por nos oferecerem um mapeamento absoluto do psiquismo, o que nos conferiria a honrosa colocação de primeiro entre os autômatos. É tola por desconsiderar nossa qualidade de falantes, de “loqüentes”, que gostosamente nos condena a estar “Mal na Civilização” como advertiu Freud. E é perigosa essa esperança, porque se lembrarmos que juntos com o discurso da ciência (fazer saber) vem o da técnica (saber fazer), quando um discurso da ciência se fundamenta num “vir tudo a saber” traz como conseqüência um “vir tudo a fazer”. A primeira metade deste vigésimo século já publicou este desastre eugênico.
Forçosamente, sempre haverá um silêncio renovado no avanço do discurso da ciência no qual a psiquiatria se suporta. A cada prova realizada outros tantos improváveis são criados ao mesmo tempo. A lanterna que ilumina é a mesma que cria a sombra.
Isso não é só papo de psicanalista, de humanistas ou outro-istas, é “papo sério” do lógico Godel o mais importante matemático contemporâneo. Atenção colegas psiquiatras, devagar com o andor que o Santo fala...
E lá vem a psicanálise e o Mal Estar na Civilização, se ocupar do improvável. Enquanto a psiquiatria civiliza a dor, classifica o particular no universo, gera remédio para todos e estatísticas de atuação; a psicanálise, como já dito, trabalha com o que escapa dessa maravilhosa parafernália: o incivilizado e particular e Real - Das Ding - a coisa freudiana.
Psiquiatria e Psicanálise se equilibram em seus impossíveis discursivos, se atendermos a Lacan. Se não vemos mais histéricas charcotianas como antigamente é também porque a psiquiatria ajudou a mudar a sua manifestação.
Não se extinguiram a histeria, a obsessão, a perversão ou a psicose mas se favoreceram o fim de certas apresentações e o aparecimento de outras. Pobre do clínico acomodado ao catálogo das aparências. Nada mais velho que o jornal de ontem.
Afora o renovar da clínica psicanalítica que a psiquiatria obriga, sobre os casos ditos ‘consagrados’ e ‘clássicos”, tem também a psicanálise que se haver com outras situações novas do discurso da ciência: o bebê de proveta, a engenharia genética, a eutanásia, a Aids, e demais elementos modernizadores na enunciação da sempre estrutural lei edípica.
Sim, por tudo isso e ainda mais, respondo sim, à pergunta que me fizeram se era importante um Congresso de Psiquiatria nos dias de hoje.
Vale, para concluir, uma lembrança - normalmente são os psiquiatras que convidam os analistas a seus congressos. Palmas para eles.
Há uma curiosidade no agradável ambiente dos congressos psiquiátricos que talvez explique: um psiquiatra sabe que é um psiquiatra; um psicanalista tem sempre que responder: “Com que roupa, com que roupa que eu vou na festa...?”