O que ficou Paraty

19/07/2012 03h02

por Jorge Forbes

Flip é festa, não é feira, nem congresso. Flip é festa, como as festas de largo, tradição de Paraty. Feira é expor para vender; congresso é discussão para saber; festa é para encontrar.

        E do fundo de sua garganta, a bela portuguesa, posta como coordenadora de debate, ainda acrescentou a seu inquérito político, com seu original sotaque: -“E o qui vócês acham do Óbaama?”. Pronto, ali se perdiam as últimas esperanças de escutar algo de literatura daqueles grandes escritores, Adonis e Amin Maalouf. Que desperdício! Tanto mar a nos separar, tanto, e nem ficamos sabendo o que eles acham do Óbaama.

        O mais elogiado nessa Flip foi, a cada reinício, Drummond ser recitado. A poesia de Drummond, como diria Carlos José de Figueiredo, seu antecessor, amparou a plateia: - “No que ficar de mim cantando no meu verso,/ Talvez que um dia alguém há de ser consolado./ ... E pelo verso meu brandamente amparado/ Possa melhor na treva esconder o seu rosto.”

        Shakespeare foi honrado por James Shapiro e Stephen Greenblatt. A questão principal era se ele existiu ou não. O escritor faz o texto, ou o texto lhe faz? Shakespeare só não existiu para você, leitor ingrato.

        Curiosa a busca incessante dos autores pela verdade e pela transparência. Acaba-se confundindo verdade com escabroso, com insulto, com sofrimento. Fico me dizendo quão interessante e operativo seria, nesse debate, o conceito de Real, em Lacan. Real não é realidade, nem boa, nem ruim; Real é aquilo que sempre escapa à justa denominação, por isso requer invenção e responsabilidade. Risco, mas não sofrimento. Invenção e responsabilidade, coisa que os autores fazem, mesmo quando não sabem.

        Junto com a questão da verdade, vemos a maioria se chamar de obsessivo. Melhor seria dizer que o autor é o fracasso do obsessivo.

        Falando em obsessivo. Ele passeia alegremente nos intervalos tecendo louvas à grande melhoria do ano, a seu ver: vasos de porcelana nos banheiros públicos da tenda dos autores. Não mais aquele buraco de plástico cinzento, lúgubre e fétido, mas uma porcelana branca que faz desaparecer qualquer mancha ali jogada.

        Enrique Vila-Matas, substituindo um prêmio Nobel que não veio, faz sua conferência. Uma mesa simples, sem adereços, e uma jarra d’água formam o todo do cenário. Ele, sentado, lê literatura. Seu rosto é de escultura de Aleijadinho. Ele lê e vira páginas. Alguns e algumas se inquietam, como se ali não fosse lugar para isso... a literatura. Discretamente barulhentos vão se retirando para a prosa de um restaurante. Saúde!

        À contracorrente. O povo quer saber – “E o Jonathan Franzen, foi mesmo um desastre? E o Ian McEwan, foi mesmo o máximo?” Arrisco dizer que gostei do Franzen, de seus embaraços, de seu evitar o show fácil e esperado, de sua quebra das expectativas. Quanto ao McEwan, sua bem medida nonchalance inglesa não me entusiasmou nem surpreendeu, sua falta de reciprocidade com a delicadeza elogiosa de sua companheira de mesa, Jennifer Egan, me pareceu aborrecida.       

        Por que insistir em dirigir aos autores perguntas próprias aos cientistas das humanidades? Meu Deus, por quê?

        Antonio Secchin e Alcides Villaça se destacaram, nas opiniões de todos, na homenagem a Drummond. Terminaram a mesa com a citação: - “A coisa que me espera, não poderei mostrar a ninguém. Há de ser invisível para todo mundo, menos para mim, que de tanto procurar fiquei com merecimento de achar e direito de esconder.”

 Veja abaixo as imagens do artigo na revista IstoÉ Gente: