O Princípio Responsabilidade: Uma Ética para a Psicanálise

19/07/2009 22h38

Elza Mendonça de Macedo

Módulo 2 – Projeto Análise

Coordenador: Jorge Forbes

Este texto apóia-se em uma leitura do livro de Hans Jonas, Le principe responsabilité – Une éthique pour la civilisation technologique (1979/1998), que estudou com Martin Heidegger e foi colega de Hannah Arendt. O conteúdo especificamente trabalhado se refere à parte IV do Capítulo Primeiro desta obra.

A justificativa é contribuir para o desenvolvimento de uma pesquisa realizada pelo Projeto Análise, que se debruça sobre o princípio responsabilidade. A hipótese é que, quando a psicanálise está voltada ao dar sentido, ela desresponsabiliza o sujeito. Com Lacan, a psicanálise se torna a clínica do real e do ato. Ela limita o gozo do sujeito e esse limite é a responsabilidade. Daí o interesse em desenvolver este estudo.

  1. O homo faber acima do homo sapiens

    O tema deste item é o da política pública. Jonas refere-se às modificações na ética acarretadas pelo fato de a techné, que tinha objetivos pragmáticos limitados, a serviço da necessidade do homem, ultrapassá-los, tornando-se, de meio, em fim em si mesmo. A techné, na sua versão moderna, pressiona para um avanço ilimitado. Jonas vê nessa busca incessante de superação de si mesmo a vocação do homem. O resultado é o domínio sobre as coisas e sobre si mesmo. Antigamente o homo faber sabia quais eram suas obrigações e não questionava sobre sua existência no mundo. Hoje ele se questiona. De submisso ao homo sapiens, ele passa a triunfar até na sua constituição interna. Há a busca incessante de superação da tecnologia, sem corresponder a uma necessidade. Dado o lugar que passa a ocupar na vida subjetiva do homem, a tecnologia vem a ter uma significação ética que antes não tinha. O homem torna-se escravo do sucesso, o que não o isenta da responsabilidade pelas conseqüências de seus atos, seja em termos positivos ou negativos. Os valores que indicavam para a plenitude do homem são ultrapassados pela propagação ilimitada de seu poder. Daí Jonas considera que há um estreitamento do conceito que o homem tem de si mesmo, bem como de seu ser. “Ele, quem é ele? O ator coletivo e o ato coletivo, não o ator individual, nem o ato individual.” O que conta, já não é tanto o aqui e agora da ação. É o futuro indeterminado que dá o horizonte da responsabilidade. A política pública tem que responder a um novo imperativo: da responsabilidade do homem frente ao seu futuro (individual ou coletivo) bem como da própria natureza. A mudança no agir humano modifica a política.

  2. A cidade universal como segunda natureza e o dever ser do homem no mundo

    Antes, o homem não tinha responsabilidade pela natureza, já que ele não a ameaçava. Contudo, a tecnologia, com seus poluentes, ácidos, plásticos, gases, colocam-na em risco. Desaparecem as fronteiras entre cidade e natureza. Modifica-se a dinâmica da liberdade do homem em relação à natureza. Relação que passa a ser objeto de legislação. Ele passa a ser responsável e surge uma segunda “natureza”, a cidade global. O mesmo homem que atenta contra a natureza é o que tem obrigação de protegê-la. Tudo isto acarreta alteração na ética. A ética se torna pública.

  3. Comentários

    Jonas escreve este livro em 1979. Antes disso, Lacan, em 1971, no Seminário “De um discurso que não seria do semblante”, afirma que entre o céu e a terra, como o fogo de artifício, nada resiste ao artificial. É de extrema relevância o papel da ciência em artificializar a natureza. Consideremos, também, o texto de Prigogine & Stengers publicado em 1984: “Sem dúvida, a ciência é uma arte de manipular a natureza . ... ‘Conhecer’ no decurso dos três últimos séculos, foi muitas vezes identificado com saber manipular.” A ciência é o que mais representa o homo sapiens, em suas últimas conseqüências. As leis têm de mudar, temos de considerar os direitos, também, da natureza. Muda o conceito de liberdade. A justiça titubeia frente ao cerceamento ou não à liberdade dos blogs. Como diz o jurista Tércio Sampaio Ferraz, a liberdade não começa mais onde termina a do outro, mas minha liberdade começa onde começa a liberdade do outro. O homem tem de garantir sua presença no mundo e, para isso deve cuidar desse mundo. Cuidar do futuro das novas gerações. Mas não num sentido moralista, não pela ética das intenções, mas pela ética da responsabilidade.
    A globalização é um produto da tecnologia, que encurta as distâncias, facilita a comunicação, modifica nossa relação com o espaço e o tempo. A natureza sofre as conseqüências do desenvolvimento, o que fazer com a produção de tanto plástico, de tantos poluentes? O homem passa a ter obrigação de proteger a natureza. Com tudo isso a subjetividade é alterada e a ética sofre mudanças radicais. Vivemos uma sociedade sem limites. É uma tecnologia que contraria conceitos, que vai além do próprio conceito de vida e morte. É como se a tecnologia possibilitasse ao homem uma extensão ilimitada. Ela é um objeto que promete o impossível. Sem limites. Além de seu resultado objetivo, por ocupar lugar importante na subjetividade humana, a tecnologia recebe uma significação ética, que envolve responsabilidade.

  4. Conseqüências para a psicanálise

    Com Freud, o homem procurava o analista para lidar com suas inibições, limitações, com aquilo que o impedia. Hoje, é para colocar limite no ilimitado da contemporaneidade. Vale lembrar aqui a invenção do psicanalista Forbes (2005): o homem desbussolado.
    Hoje, supõem alguns, “felicidade” se compra com remédio, mas para a psicanálise, só com responsabilidade. A ética é outra.
    Em termos de esforço humano a tecnologia ultrapassa os fins pragmaticamente limitados de tempos anteriores. Ela está para o benefício de si mesma. Que o homem se aproveite dela, é secundário. De um meio, a tecnologia passa a ser um fim. Ao invés dela estar a fim dos nossos interesses, somos nós que nos subordinamos aos seus interesses. Essa é a rota da humanidade em nossos dias. A vocação do homem à ultrapassagem de si mesmo. Dominar, não só as coisas, mas a si mesmo. Jonas considera que o homo faber, que foi servil ao homo sapiens, hoje triunfa sobre ele e determina sua subjetividade e sua ética. Hannah Arendt, colega de seminário de Jonas, também se preocupa com o tema da responsabilidade. Ela diz do pensar, aquele diálogo entre o mim e o mim mesmo. “Um pensar que não é técnico e nem diz respeito a problemas teóricos.” (1964/2004, p. 107) Ela se refere a uma linha divisória, independente de diferenças sociais ou educacionais, entre aqueles que querem pensar e se responsabilizam por si mesmos e não pelas regras, e os que não querem pensar.
    Será que podemos supor um homo sapiens-faber, que pensa, faz e se responsabiliza? Meu argumento para isso é que a tecnologia atual envolve ciência, conhecimento e inventividade. Ela é cumulativa e não se deixa padronizar. O recomeço ocorre sempre na invenção, garantindo o desenvolvimento da tecnologia e sua relação interdependente com as pessoas. O que marca já não é o espaço da atualidade, mas a invenção do futuro, outro termo cunhado por Forbes (2005). Isso modifica a essência da relação entre política pública e psicanálise, em que o princípio responsabilidade e o ato do analista se contrapõem ao ilimitado da tecnologia.


O Projeto Genoma, por exemplo, desafia para um novo modo de pensar a ética: abortar ou deixar viver um feto cuja análise dos gens garante que ele desenvolverá uma doença que o paralisará aos 15 anos? O que fazer aos três meses de gravidez, quando se sabe que nascerá uma criança cega? A orientação do real, como diz Forbes, é que existe um limite, não se pode tudo.
E o limite é a responsabilidade.

Aos analistas, abre-se o desafio de pensar o texto filosófico de Jonas, no campo da psicanálise, já que o princípio responsabilidade também lhes é fundamental.

Referências Bibliográficas

Arendt, Hannah Responsabilidade e julgamento, São Paulo: Companhia das Letras, 2004, cap. 1 Responsabilidade (1964).

Forbes, Jorge; Reale Jr., Miguel & Ferraz, Tércio Sampaio (Orgs.) A invenção do futuro – Um debate sobre a pós-modernidade e a hipermodernidade. Barueri: Ed. Manole, 2005.

Forbes, Jorge A psicanálise do homem desbussolado – as reações ao futuro e o seu tratamento, Opção Lacaniana, n. 42, 2005, p. 30-33.

Jonas, Hans Le Principe responsabilité – Une éthique pour la civilisation technologique, Paris: Flammarion, 1998, capítulo primeiro – A transformação da essência do agir humano, parte IV – A tecnologia como “vocação” da humanidade, p. 35-38.

Lacan, Jacques Seminaire 18 - D´un discours qui ne serait pas du semblant, 1971, transcrição.

Prigogine, Ilya & Stengers, Isabelle (1984) A nova aliança, Brasília: Ed. UnB, 1991.

São Paulo, 4 de setembro de 2006